Vamos falar de SONHOS?


| Desenvolvimento Humano

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Sempre falamos de sonhos, de realização, de buscar a felicidade por aqui. Às vezes, pode ser que pareça um pouco abstrato esse discurso, algumas pessoas se identifiquem, outras se vejam um pouco mais distante dessa realidade. Hoje, então, resolvi falar de sonhos de uma maneira diferente. Contando uma história. Ou melhor, parte de uma história (a minha própria). Alguns de vocês talvez já conheçam, acompanhem ou façam parte, outros podem estar entrando em contato pela primeira vez. De uma maneira ou de outra, o objetivo aqui é unicamente mostrar que é possível. Inspirar o sonho, a busca, a crença, a dedicação e o comprometimento de alguém consigo mesmo, a partir de um “pequeno” exemplo pessoal. Comecei recentemente a sentir a necessidade de falar na primeira pessoa, em algumas situações, não para servir de exemplo (longe disso, estamos todos numa constante busca!), mas para me aproximar mais de cada um de vocês. Então, pode ser que de vez em quando eu acabe personalizando um pouco mais as mensagens que deixo aqui.

Voltando a falar de sonhos, aproveito para comunicar que passarei as próximas três semanas um pouco mais “ausente” do mundo virtual, pois entrarei de férias. Prometo tentar dar notícias ao longo dos dias e voltar com ainda mais energia para partilhar com vocês. Mas o que o “aviso de férias” tem a ver com sonhos?

Acontece que o sonho dessa viagem começa muitos anos atrás. Quando eu ainda era bem pequena, mas já me “entendia por gente”, quando me perguntaram o que eu queria pro futuro, eu sempre dizia, dentre outras coisas: “conhecer o mundo!”. Fui crescendo com esse sonho, apaixonada pela História, pelos idiomas e até pela Geografia dos lugares. Lia, pesquisava, me encantava e sonhava um dia poder conhecer cada uma daquelas cidades (a lista sempre foi grande e não pretende ser esgotada, mas chegaremos já ao ponto). Tendo nascido em uma família da classe média trabalhadora, cujos pais trabalhavam como autônomos e se esforçavam para garantir o mínimo necessário para o nosso crescimento (e a educação sempre esteve como prioridade), e cujas dificuldades alguns de vocês devem ter conhecido ou experimentado também, sempre fui determinada a buscar aquilo que eu desejava através de mim mesma (ainda que contasse com o incentivo de todos à minha volta). Sonhava em fazer intercâmbio desde a época da escola, mas as condições financeiras não permitiam. Estudava inglês por conta própria até ganhar uma bolsa de estudos numa escolinha de idiomas recém inaugurada no centro da cidade. Estudava muito, não só porque precisava passar no vestibular de uma Universidade pública, mas porque eu gostava mesmo.

Entrei nessa Universidade, pensei que lá aumentariam as minhas chances de ir morar em outro país, mesmo que por um tempo, mas ainda não era possível me sustentar durante o período dos estudos em outro continente. Entrei em grupos de pesquisa, estágios, e todo tipo de economia que eu conseguia fazer, guardava, pensando neste grande sonho (que já tomava corpo e se transformava num objetivo, numa meta). Dois anos antes de terminar a faculdade, conheci um programa de mestrado na Europa, que me oferecia tudo o que eu sonhava e ia além: eu moraria em pelo menos dois países, por dois anos no total, convivendo com pessoas de todo o mundo, estudando o que eu mais gostava, nas melhores universidades da Europa, com alguns dos professores mais proeminentes da minha área. Isso, claro, se eu passasse no processo seletivo e ganhasse a bolsa, porque, mais uma vez, seria muito difícil eu conseguir me sustentar por dois anos em outra moeda (se eu fosse por minha conta, as economias que eu fizesse durante a faculdade dariam para as passagens e um ou dois meses, no máximo, de aluguel, transporte e alimentação, sem contar as taxas do programa de mestrado em cada universidade envolvida).

Bom, eu tinha então dois anos até a formatura para me organizar. Afinal, alguns dos requisitos eram ter o diploma em Psicologia e mais dois idiomas do grupo de países envolvidos, além do inglês. O inglês eu estudei por cerca de cinco anos e, embora não tivesse sido nas escolas mais renomadas e eu nunca tivesse tido experiência internacional, considerava que conseguiria “me virar bem” (ainda que a dissertação do mestrado devesse ser escrita em inglês e algumas aulas fossem nesse idioma, que é o oficial do mestrado). O Português, sendo minha língua materna, me levou logicamente à minha primeira escolha: Universidade de Coimbra, em Portugal. O outro idioma eu ainda precisava começar, do zero. Dentre espanhol, francês e italiano, optei pela afinidade (e é claro, por intensificar o sonho), e escolhi o francês (afinal, morar em Paris e estudar na “Université Paris-Descartes” me atraía muito mais do que Itália ou Espanha, naquela época). Comecei a fazer o curso de francês na própria universidade, pois os valores eram muito mais acessíveis e os professores excelentes. E se nada desse certo, eu já tinha um possível plano B: fazer uma pós-graduação enquanto avançava mais no francês e economizava mais um pouco para tentar novamente, ou ir para o Canadá (o francês precisava ser aproveitado de alguma forma!).

Os dois anos se passaram, concluí a graduação, cheguei ao nível intermediário do francês, providenciei passaporte, tradução juramentada de todos os documentos solicitados pelo programa, escrevi uma carta de motivação das mais sinceras que já fiz, e tão logo abriram as inscrições (no final de 2007), enviei toda a documentação pelos Correios para a Europa e aguardei ansiosamente o resultado (ainda haveria uma etapa se eu fosse selecionada: uma entrevista por Skype). Tinha feito tudo o que podia e dependia de mim até ali, agora era esperar.

E a resposta veio através de um telefonema, atendido por minha mãe: a minha entrevista foi agendada para janeiro de 2008. Nesse dia, cada um contribuiu como pôde: meu pai me deu carona para que eu conseguisse chegar mais cedo do trabalho, meu irmão arrumou o computador para que tudo funcionasse direitinho e minha mãe foi pra igreja, rezar. A entrevista transcorreu tranquilamente e tive a sorte de ter sido em português, com um professor extremamente amigável. Mais uma vez, agora era só esperar pelo resultado final, que viria por e-mail, através de um código que deveria ser verificado no site do programa. Cerca de um a dois meses depois, recebi o tal código e precisei respirar fundo muitas vezes para ir conferir o seu significado no site. Quando tive coragem de abrir, precisei conferir muitas vezes mais para acreditar. Eu tinha entrado. Tinha sido selecionada para uma das dezoito bolsas que seriam oferecidas para o mundo inteiro. Ainda aguardaria a chegada dos documentos oficiais para solicitação de visto e todas as burocracias necessárias, por isso preferi compartilhar somente com os mais próximos e reservaria as comemorações para o dia da chegada da carta de aceite (isso aconteceu entre abril e maio de 2008). Depois disso, ainda passei quatro meses no Brasil, organizando tudo e trabalhando para continuar economizando o que pudesse (aqui preciso agradecer o apoio e a compreensão da minha gerente, coordenadora e equipe de trabalho como um todo, naquele meu primeiro emprego, recém-formada, mas que eu já iria precisar deixar, em prol de algo muito maior).

Talvez esse relato represente uma coisa “pequena” para algumas pessoas, mas o que significou aquele momento para mim, somente quem já realizou um grande sonho na vida, seja ele de que tamanho for, é capaz de sentir e tentar descrever. Talvez não precisasse dizer que aqueles foram os dois anos mais intensos da minha vida. Mas digo. Em termos de aprendizado, crescimento pessoal e profissional, construção de laços, descoberta de mim mesma e uma série de outros aspectos que poderia listar. Lembro que nos primeiros dias, eu gostava de sair sozinha por alguns minutos, andando pelas ruas e admirando cada construção, cada paisagem, cada pessoa, cada costume diferente que eu encontrava. Fiz isso em Coimbra, em Paris e em Lisboa, que foram as três cidades em que morei durante este período. Mas fiz também em várias outras que tive a oportunidade de visitar, sozinha ou acompanhada, ao longo dos dois anos em que estive por lá. Sentia um grande deslumbre por tudo, mas, acima de tudo, sentia uma enorme gratidão.

Conheci pessoas de todo o mundo, algumas que se tornaram parte indispensável na minha vida, da minha família, e com quem mantenho contato e convívio até hoje. Pude estudar e pesquisar temáticas que sempre me encantaram e tive o privilégio daquele mesmo professor “extremamente amigável”, que me entrevistou, se tornar meu orientador no mestrado e um grande incentivador nos momentos de angústia. Claro que esses momentos também existiam, estamos falando aqui da vida como ela é, ou como ela pode ser… Mesmo vivendo o meu sonho, eu ainda estava longe do meu país, da minha família, dos amigos, e também vivia o estresse das aulas, dos trabalhos e seminários a serem apresentados, da produção acadêmica, etc. Perdi casamentos, nascimentos, despedidas temporárias e definitivas. Pois é, tudo na vida tem dois lados. O importante é estar consciente de cada um deles antes de tomar uma decisão. Mesmo sabendo que não seria fácil, eu optei por arriscar e aproveitar aquela oportunidade que eu mesma havia buscado. Vivi intensamente e trago em mim as lembranças mais lindas.

Voltando ao ponto de partida: o que tudo isso tem a ver com o meu comunicado de férias mesmo?

Acontece que, depois de sete anos, finalmente vou retornar. Vou a passeio, com reencontros já agendados com amigos e professores, roteiros semi-estruturados (uns conhecidos outros não, mas certamente todos sob um olhar totalmente diferente), e com a companhia do meu esposo e parceiro de vida. Ao longo dos últimos anos, já estivemos em outros lugares, conhecemos outros países juntos, mas essa é a primeira vez dele no outro lado do Atlântico. E esta é, portanto, a realização de mais um sonho: não só rever os meus amigos e voltar aos lugares onde vivi, e que me marcaram tão positivamente, como poder apresentá-los e revisitá-los com ele.

Certamente outros sonhos nasceram, cresceram, se realizaram (inclusive o nosso casamento, após anos de relacionamento à distância, mas essa é outra história); outros sonhos têm sido transformados em metas; outros já estão em andamento; muitos mais surgirão. Escolhi este para mostrar a vocês o quanto é possível quando a gente acredita, transforma e direciona nossas energias e nossas ações para concretizar. Hoje eu posso dizer que trabalho com os sonhos das pessoas. Muitos sonhos adormecidos, outros esquecidos, outros ainda sufocados. Trabalho no resgate, no fortalecimento, na transformação desses sonhos em metas e, consequentemente, em realidade. Sejam esses sonhos de que tamanho forem e em que direção forem, descobri há algum tempo que a minha missão era proporcionar que mais pessoas se descobrissem e encontrassem possibilidades de também viverem esse sentimento de realização e felicidade, apoiando, incentivando e trabalhando com elas para colocar ações concretas em prática, que as fossem aproximando das suas metas. Seja em grupo ou individualmente, é isso que tenho feito e amado fazer, procurando ser sempre fiel ao nosso lema: “iluminar caminhos, fortalecer sonhos, potencializar resultados”.

Espero que este relato pessoal e “resumido” consiga tocar cada um de vocês, impulsioná-los de alguma forma a reencontrarem seus sonhos, a retomarem a caminhada em sua direção, a permanecerem firmes diante de quaisquer obstáculos, a criarem planos alternativos caso precisem mudar a rota, a seguirem em busca da sua felicidade. Da minha parte, prometo estar por perto e apoiá-los em todo o processo. Por ora, peço licença para arrumar as malas, pois partimos em dois dias rumo agora a um sonho que deixou de ser só meu e passou a ser de dois. E, como dizia o meu conterrâneo Raul Seixas, “sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade”. E eu tenho tido a companhia de pessoas extraordinárias sonhando comigo. Quero retribuir e sonhar com muito mais gente também!

Um abraço e até a volta!